Bruno Koga

Adeus, Ginga

Entrei aqui pela primeira vez e ouvi que esse era um lugar diferente. Havia cervejas importadas liberadas para os funcionários, pebolim e video-game a vontade. O horário era flexível e quinta-feira era o dia oficial do futebol. Apesar de muito organizada, a descontração era uma característica forte e algo que estava “no DNA da empresa”.

E, durante alguns dias, vi que as coisas eram diferentes mesmo. Após o expediente, antes de voltar para casa, eu pegava uma cerveja e relaxava depois de um cansativo dia de trabalho. Depois do almoço ou no meio da tarde, uma partidinha de video-game era de lei para descontrair a mente. Idéias de melhoria e inovação eram sempre bem-vindas. A capacitação dos funcionários era, claro, algo altamente apreciado. Duas vezes por mês tínhamos nossas Innovation Sessions, onde a empresa toda parava para discutir novas idéias e tecnologias que podíamos utilizar no nosso dia-a-dia.

De março a abril desse ano fiz uma viagem para a Europa e fiquei trabalhando remoto durante esse tempo. Foi aí que a organização da empresa começou a se mostrar frágil. A falta de contato, de interesse e do empenho na comunicação fizeram com que esses meses não fossem aproveitados (nem por mim, nem pela empresa) como deveriam.

Foi aí que tudo começou - ou que, pelo menos, comecei a perceber. Descobri que as partidinhas de video-game no meio da tarde eram vistas com maus olhos. As cervejas foram restritas a apenas 1 vez por mês e o pebolim agora fica do lado da mesa do chefe. Como era de se esperar, as innovation sessions foram substituídas por task-forces e, com o tempo, a geladeira de cervejas se foi, assim como o video-game. Se foi também o controle remoto da TV, que foi escondido pelo dono da empresa após o escritório parar por 30 minutos para assistir o emocionante jogo da Argentina x Suiça pelas oitavas de final da Copa do Mundo. Se foram também os momentos descontraídos, as risadas e a vontade de ser algo mais além de uma empresa quadrada. Almoços deixaram de ser momentos de descontração para serem apenas uma pausa para se alimentar.

A história de capacitação era, claro, mentira. Ao anunciar que eu decidira ir ao WWDC esse ano (pagando tudo do meu bolso, claro), fui intimado e coagido. Tive que, além de pagar todos os custos, usar dias de férias para ir ao WWDC. Dizer que é a maior e mais importante conferência para mim (e para quase todos que desenvolvem para os dispositivos da Apple) não ajudou em nada. O que eu ouvi é que eu estava deixando de trabalhar para viajar.

Estou abrindo mão de muita coisa para sair, mas não tenho porque ficar. Tenho sorte de viver em uma época que o meu trabalho é valorizado e de existirem empresas que querem me dar uma das coisas que mais me motivam nessa profissão: um ambiente de trabalho onde as pessoas realmente gostem do que façam e que o trabalho bem feito seja consequência disso. Um lugar onde ficar trabalhando até mais tarde seja um prazer e não uma obrigação. Um lugar onde os chefes não escondam os controles remotos.