Bruno Koga

Backup

Em 2012 fiz a minha primeira viagem para St. Louis. Nessa época eu ainda não sabia que ia passar a maior parte de 2013 nesta estranha, mas de certa forma simpática, cidade do Mid-West americano. Eu conhecia muito pouco sobre St. Louis e não sabia como eu ia me virar nos primeiros dias que eu estivesse por lá. Tudo correu muito bem, graças a ajuda e companhia de um grande amigo meu, o Mogames que estava viajando comigo.

Depois de alguns dias na cidade, ele me mostrou um vídeo que ele estava gravando durante a viagem. Ele tinha recém apoiado um projeto no Kickstarter de um app chamado One Second Everyday e o esse projeto tinha sido realizado, o aplicativo foi desenvolvido e estava disponível na App Store. A idéia do app era bem simples: de gravar pelo menos 1 vídeo por dia para que, mais tarde, fosse editado para ter apenas um segundo de duração. Depois fazia-se um vídeo juntando esses vídeos de um segundo. É isso. Um segundo por dia. No site do aplicativo tem um vídeo muito legal, dá uma olhada lá.

Nunca fui o maior fã de tirar fotos, mas achei a idéia de fazer o vídeo interessante e me planejei para fazer um também. E, claro, deixei a idéia de lado.

Em setembro de 2013, ainda “morando” em St. Louis, comecei a fazer os planos para o primeiro semestre de 2014 e resolvi passar dois meses na Europa. E como o ano de 2014 prometia ser um ano bastante viajado, me planejei para gravar um vídeo de um segundo por dia. Yay!

Poucas vezes tive tanta disciplina para realizar algo diário como desta vez para gravar os vídeos. Coloquei dezenas de alarmes todos os dias (e não sou o maior fã de notificações e alarmes no celular) e me forçava para gravar pelo menos um vídeo a cada dia, mesmo que fosse da coisa mais simples ou rotineira. Queria manter o hábito de gravar todos os dias (o vídeo fica mais legal quando não se esquece de gravar nenhum dia).

Me orgulho de não ter esquecido nenhum dia. Gravei o primeiro dia do ano, gravei os meus primeiros dias de trabalho na Ginga, a visita que fizemos ao meu pai em Teresina, a viagem para a Europa - as três conferências que eu fui, as cinco semanas que passamos em Amsterdã, os dias em Barcelona. Além disso, acabei viajando mais do que eu a princípio havia planejado e ainda no primeiro semestre fui para Montevidéu e para San Francisco. Outro evento interessante que estava fazendo o vídeo ficar legal é que esse ano teve Copa do Mundo no Brasil.

Eu estava esperando completar o ano inteiro para compartilhar o vídeo para quem quisesse ver. Só que no fim de Junho, roubaram meu iPhone. Isso mesmo. Roubaram meu iPhone.

Não interessa se os ladrões estavam ou não armados, não interessa se dava para correr. Eu jamais reagirei a um assalto. No final das contas, eu estava carregando algumas coisas que dariam mais trabalho para mim de conseguir comprar novamente, como meus fones de ouvido e, sinceramente, saí no lucro.

Depois do assalto, peguei um táxi para casa (nessa época eu morava com os pais da Marília, ali perto da Lapa) e fui direto no Mac apagar meu iPhone remotamente (odeio usar senha no iPhone e por isso ele estava totalmente destravado). Passado o susto, o dia foi voltando à sua normalidade. Lembrei então de gravar o meu vídeo do dia.

Não consegui, claro. Não tinha mais a minha câmera e o pior de tudo, não tinha mais os vídeos passados. Estava tudo gravado unicamente no meu iPhone.

Nunca tive o hábito de fazer backup. No ano passado, comecei a subir as fotos no Flickr apenas pelo fato de eu não ter espaço (nem vontade) para armazenar todas as fotos no computador ou no iPhone. Por não ter uma internet decente, porém, não era tão comum eu fazer o mesmo para os vídeos. Era isso, não tinha para onde fugir: eu tinha perdido meus vídeos para sempre. Não tinha o que fazer. Era bola para frente e aprender com essa lição.

Fiquei cerca de uma semana sem celular e peguei emprestado um outro iPhone 5 com um grande amigo meu. O aparelho era similar ao que eu tinha, porém com 16gb de armazenamento ao invés de 32. Resolvi que não ia comprar outro iPhone (até porque em Setembro tudo indicava que o iPhone 6 seria lançado) e uso ele até hoje.

Até ontem ele estava rodando uma versão beta do iOS 8, por que não estava fácil liberar cerca de 5gb que precisava para instalar a versão final e eu não estava conseguindo fazer backup pelo iTunes. Tentei em 4 computadores diferentes (rodando tanto o Mavericks como a versão beta do Yosemite) mas o resultado era sempre o mesmo: o backup falhava, claramente por algum bug no iOS 8 beta. E o pior de tudo: eu estava recebendo notificações da Apple avisando que aquela versão beta do iOS ia expirar.

Acabei comprando 20gb de espaço no iCloud por $0.99 e fazendo backup pro iCloud (que deu certo). Ao invés de baixar o iOS 8 pelo próprio iPhone, baixei pelo site da Apple e fiz a instalação pelo iTunes (o que me poupou de ter que liberar 5gb no aparelho). Para a minha supresa, não precisou formatar o iPhone e por isso nem precisei usar o backup.

Por causa de todo esse problema em fazer o backup, acabei lembrando de um fato engraçado que aconteceu quando a gente estava em Barcelona no começo do ano, logo após a úll e antes da UIKonf. Essa era a terceira vez que estávamos Barcelona visiando nossos grandes amigos Bruno e Paulets. O Bruno tinha acabado de trocar o iPhone 5 dele de graça porque a Apple estava fazendo um recall por causa de um problema com o botão de ligar/desligar do aparelho. Como eu tinha comprado meu iPhone lá em Barcelona em 2012 (e porque eu gosto de trocar minha coisas por coisas mais novas de graça), levei meu iPhone para ser trocado também (nessa época, eu não tinha sido roubado ainda). O Bruno me avisou para fazer um backup antes de ir na Apple, pois assim, caso eles quisessem trocar o aparelho na hora, o processo seria mais rápido. Pela primeira vez na história, fiz um backup do meu iPhone no Mac.

Fomos na Apple, mas, no final, não consegui trocar meu iPhone. Me disseram que teriam que trocar apenas o botão de ligar/desligar e não o aparelho inteiro, e por isso eles teriam que ficar com o iPhone por uma semana. Só que dali três dias estaríamos embarcando para Berlim. Acabei ficando com o iPhone do jeito que estava mesmo (ou seja, em estado perfeito, já que eu não tinha problema nenhum com o botão, só queria trocar por um novo). Vida vai, vida vem, fui roubado e aqui estou.

Até que… ei, espera! É isso mesmo! Eu fiz um backup do meu iPhone em maio desse ano! Isso significa que se eu restaurar o backup, todos os meus vídeos e fotos que tirei no começo do ano estarão lá! Hmm, será que estarão mesmo? Como funciona o backup do iPhone? Ele salva todas as fotos e vídeos ou apenas os dados dos apps?

Por curiosidade (e com o único intuito de de resgatar meus vídeos de um segundo), hoje de manhã tentei restaurar o backup no meu iPhone, mas não consegui. Meu iPhone antigo tinha o dobro da capacidade de armazenamento do atual e por isso não tenho espaço livre para restaurar o backup.

Pensei então em todas as pessoas para quem eu possa pedir um iPhone de 32gb emprestado apenas para dar uma formatadinha, mas não me vieram muitos nomes à cabeça.

Como bom programador que sou, recorri ao iExplorer, uma ferramenta que te ajuda a explorar o sistema de arquivos do iPhone. Para a minha surpresa, o programa já tem uma funcionalidade de explorar backups do iTunes. Sempre usei a versão demo e hoje tomei vergonha na cara e paguei o valor pela licença do app. Aliás, comprei o Ultimate e tenho 4 licenças para quem quiser.

Sinceramente não estava com muitas esperanças de achar os vídeos. Na época que eu estava gravando os vídeos todos os dias, eu acabava gravando muitos vídeos e, depois de importar um segundo para o app, eu acabava deletando original (afinal, eu tinha gravado apenas para pegar um segundo mesmo). E não acreditava que eu iria conseguir recuperar os clipes de um segundo de dentro do app, juntá-los de alguma forma e fazer o vídeo completo novamente.

Usando o iExplorer, descobri que no dia 3 de Maio, por algum motivo que desconheço (provavelmente para mostrar o vídeo para o Bruno e/ou para a Paulets), eu “compilei” todos os clipes que tinha gravado até aquele dia e salvei o vídeo final no rolo da câmera do iPhone. Procurando pelas fotos e vídeos nesse único backup que eu tinha eu achei esse vídeo. Eu achei esse vídeo. Eu. Achei. Esse. Vídeo.

Vocês não tem noção da felicidade que eu estou sentindo agora.