Bruno Koga

Desprendimento

Quando voltei da minha segunda viagem ao Japão, em março de 2008, uma inusitada surpresa esperava por mim na república¹ em que eu morava em São Carlos: todas as minhas roupas haviam sumido! Todas.

Antes de ir passar 3 meses em Toyota, em dezembro de 2007, deixei todas os meus pertences (roupas, na grande maioria) guardadas em um só lugar, pois nós, da república, estávamos de mudança para uma casa maior e as pessoas que moravam comigo iam levar minhas coisas para a casa nova. Quando voltei, ninguém sabia onde estavam as minhas roupas!

Nessa época, eu morava em uma casa de três quartos com mais sete pessoas. Até hoje ninguém conseguiu me explicar direito o que aconteceu, mas a verdade é que eu estava ali, com apenas algumas peças de roupa e nenhuma vontade (nem dinheiro) para comprar mais. Então, a partir desse dia todos os meus pertences passaram a ser apenas o conteúdo de duas pequenas malas e uma mochila, que eram tudo que eu tinha trazido de volta do Japão.

Depois de passado o estresse inicial (que não foi pouco), me dei conta de que em nenhum outro momento da minha vida me senti tão leve. A falta de possuir bens materiais me deu uma sensação de liberdade, de estar pronto para viajar (ou me mudar) para qualquer lugar em questão de minutos. Afinal, não tinha o que levar.

Comecei a procurar na internet pessoas que viviam de modo parecido. Conheci blogs e principalmente pessoas que me trouxeram inspiração para viver essa vida “minimalista”, com mais foco no presente e nas experiências. Passei a prestar mais atenção na hora de comprar (ou mesmo desejar) qualquer tipo de bem. Passei também a refletir melhor antes de gastar o meu dinheiro.

Viver desse modo tem me trazido oportunidades de viajar pelo mundo que tenho certeza que não conseguiria se tivesse tantas coisas me prendendo em algum lugar. Desde 2008, além do Japão e São Carlos, já morei em São Paulo, Campinas, St. Louis e agora estou de volta a São Paulo. Também consegui ter tempo e dinheiro para conhecer e visitar cidades pelo Brasil e pelo mundo, como Fortaleza (2009 e 2012), San Diego e Los Angeles (2011), Navegantes, Blumenau e Balneário Camboriú (2011), São Francisco (2011, 2012, 2013), Nova York (2012), Denver, Chicago (2013), Barcelona (2012 e 2013), Munique (2012), Amsterdam (2013) além de diversas cidades no interior e litoral paulista.

Mês que vem estou indo passar dois meses para participar de três conferências na Europa. Muitas pessoas olham para mim como se eu fosse rico ou falam com admiração: “Nossa, você tem muita sorte de conseguir fazer isso”. Aprendi que somos capazes de fazer qualquer coisa e que o dinheiro quase nunca é o problema. É claro que existem exceções, mas na grande maioria dos casos as pessoas deixam de aproveitar a vida por priorizar a aquisição de pertences, o que gasta não só dinheiro, mas muito tempo também.

Tudo que precisei para planejar essa viagem, que para mim é a realização de um sonho, foi vontade, determinação e planejamento. Desde 2008 me vigio constantemente para não gastar dinheiro com coisas que vão me prender em algum lugar (ou que vão dificultar a minha vida, caso eu deseje sair daquele lugar). Além disso me organizo para que eu seja 100% capaz de fazer meu trabalho de praticamente qualquer lugar do mundo. Para essa minha viagem à Europa, precisei vender meu carro (e agora dependo 100% de transporte público) mas não me arrependo e, inclusive, é algo que aconselho a todos.

Nos apegamos às coisas com uma facilidade que é difícil até de admitir. Tente pensar na sua vida sem seu carro, sem móveis no quarto, ou mesmo sem um quarto só para você. As vezes gosto de pensar no que seria da minha vida se um dia eu perdesse tudo que é material. O que você faria? Não é a falta de dinheiro - nem de tempo - que te impede de realizar seus sonhos. É você.

¹ Não sei se “república” é um termo muito comum. De qualquer modo, segue o link da Wikipedia para “república estudantil”.

PS. Se você quer saber mais, recomendo esses três sites abaixo o primeiro é em português, os dois últimos em inglês.