Bruno Koga

Não aconteceu nada

Todos os dias faço o mesmo trajeto a caminho da empresa que trabalho. Da academia ando cerca de 30 minutos até a estação de trem da Cidade Universitária. De lá pego o trem até a Berrini e ando mais uns 10 minutos até o destino final.

Essa primeira caminhada até a Cidade Universitária é um dos momentos que mais gosto no dia. A rua é bastante arborizada e o fluxo de carros e pessoas, pelo menos até a Praça Pan-Americana, é super sossegado, o que torna a caminhada agradável. É nesse momento que planejo meu dia, sempre ouvindo música ou, não raramente, ouvindo um dos podcasts que escuto regularmente.

Esse também é o caminho mais fácil para chegar ao trabalho. Caso eu optasse (como já fiz algumas vezes) por um caminho alternativo (talvez para andar menos, como sei que muitas pessoas prefeririam) eu teria que pegar 3 trens (fazendo duas baldeações bem chatas: na Consolação/Paulista e em Pinheiros) ou pegar dois ônibus (o que aumentaria o tempo do trajeto em cerca de meia hora, com trânsito bom). Me sinto até privilegiado por, morando em São Paulo, fazer um caminho tão tranquilo para ir trabalhar todos os dias. Na quarta-feira passada dois rapazes em uma moto me pararam para pedir informação. É, eu sei. Só de ler essa frase todos vocês já sabem que se trata de um assalto. Eu estava, como sempre, ouvindo alguma coisa no meu iPhone (e usando um fone não muito discreto) e nem vi quando a dupla se aproximou e pediu informação. Quando percebi, eles já estavam parados do meu lado, repetindo alguma coisa que eu não havia ouvido.

Tirei calmamente o fone e o rapaz que estava na garupa falou: “me dá o celular e vaza, como se não tivesse acontecido nada”.

Calmamente peguei o meu celular, que estava no bolso direito (onde também estavam minhas chaves e minha carteira com documentos e cartões), despluguei o fone e entreguei na mão dele. Depois vazei, como se não tivesse acontecido nada.

Dei mais 20, 30 passos. O próximo carro que passou por mim era um táxi. Dei sinal, voltei para casa e fiz todos os procedimentos de praxe: apaguei os dados do celular pelo “Find my iPhone”, bloqueei a minha linha na Vivo (que por si só já é uma experiência quase tão ruim à experiência de ser roubado) e comuniquei às 4 ou 5 pessoas com quem falo com mais frequência do ocorrido. Pelo resto do dia trabalhei de casa, já que, obviamente, não estava mais no clima para ir até o trabalho. Não sei se eles estavam armados e nunca passou pela minha cabeça a possibilidade de correr ou reagir. Sinceramente, por mais absurdo que essa frase possa soar, fiquei aliviado de terem levado só o celular.

Amanhã vou ao trabalho pela primeira vez desde o ocorrido e tenho algumas opções de caminho a escolher. As duas que considero (descartando, claro, a possibilidade de pedir demissão) são: 1) continuar indo pelo mesmo caminho como se não tivesse acontecido nada ou 2) ir de ônibus. Se eu escolher a primeira opção, eu não vou mais usar meus fones na rua, vou deixar meu celular sempre bem guardado e vou andar sempre mais alerta. Na segunda opção, continuo ouvindo minhas músicas/podcasts, mas levo cerca de meia hora a mais para chegar no trabalho, além de abrir mão da minha tão querida caminhada matinal. Em outras palavras, ou eu fico mais “noiado” todas as manhãs, com receio de ser assaltado novamente (e sem música) ou eu perco meia hora a mais por dia (e dou adeus à minha tão amada caminhada).

Consigo ver essa história de vários ângulos e quase todos me remetem à mesma sensação: de raiva e de desejo de vingança. Absolutamente todas as pessoas para quem eu contei essa história me perguntaram se eu liguei o “Lost Mode” do “Find my iPhone” (bom, pelo menos todas as que sabem o que é isso) e muitas me aconselharam ir à polícia ou procurar pelos bandidos para resgatar o celular e mandar os infratores para a cadeia.

Não é disso que preciso. Um grande amigo me ensinou recentemente que a vingança e esse senso errôneo de justiça apenas nos aproxima mais daqueles com quem não concordamos. Tudo que sinto pelas duas pessoas que me assaltaram é pena. Pena porque sei que infelizmente eles escolheram esse caminho ao invés de ter um trabalho justo. Pena porque depois do esforço em assaltar alguém do bem, nem o celular eles vão conseguir usar.

Lembrei que há 8 anos roubaram o meu primeiro Mac. Se tem uma coisa que essa vida me ensinou é que as coisas materiais nós sempre conseguimos comprar de novo (e quem, naquela época, diria que eu, em 2014, poderia ter o Mac que eu quisesse à disposição?) e que não vale a pena ricochetear esse sentimento ruim para as outras pessoas, por mais que julguemos que elas mereçam. Eu não me importaria em fingir que não aconteceu nada se eu tivesse certeza que isso não poderia acontecer de novo. Analisando todo o ocorrido, o que me entristece de verdade é a prisão em que esse tipo de situação nos obriga a entrar: ter que abandonar um simples hábito saudável que eu fazia questão de praticar todos os dias. Um hábito que energizava tanto meu corpo como a minha mente e me fazia ter uma vida melhor. O celular eu consigo outro, mas parte da minha qualidade de vida se foi a troco de nada.

Não sinto raiva. Não quero vingança. Não quero justiça. Quero apenas poder caminhar tranquilamente todos os dias antes de ir trabalhar. Parece meio cliché, mas é a verdade.

Será que isso é ser melhor?